“O que eu aprendi ao passar 200 dias sem comprar nada novo”

Como sempre, desapego é um dos meus assuntos preferidos, não dá pre negar. Mas sei também, por experiência, que é um dos assuntos mais delicados e difíceis, portanto, sempre que vejo um texto bacana, de alguém que fez um ato de desapego, acho interessante compartilhar.

Nesse caso, eu li em um site uma entrevista com uma pessoa que ficou 200 dias sem comprar nada novo, e ela relata o que mudou na visão dela depois que esses dias passaram.

Vale a pena conferir.

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Há alguns meses, a engenheira Assya Barretteeu passou pela pior experiência de sua vida. O pai dela faleceu. E uma das partes mais dolorosas era não ter tempo sequer para o luto. Afinal, Assya precisava trabalhar. Além do emprego, havia ainda as pilhas de papeis, as pessoas que precisavam ser avisadas e as providências que devem ser tomadas em tais situações. Quando ela pensou que a parte mais difícil estava acabando, teve de esvaziar o apartamento de seu pai. Resultado? Mais dor.

Assya sentia a perda a cada item que tocava. E havia muitos — levou semanas para limpar toda uma vida de acumulação. Semanas para vender, doar, reciclar ou jogar fora as caixas e caixas de utensílios de cozinha, roupas, móveis e materiais de escritório. Tempo, dinheiro e esforço investidos para conseguir todas aquelas coisas e, naquele momento, estavam sendo descartadas. Com qualquer pessoa, é bem parecido. Foi quando Assya disse para si mesma que, na vida dela, seria diferente.

“Decidi que não quero que este seja o meu ‘normal'”, escreveu em um artigo para o site Collective-Evolution. “Embarquei em um experimento de 200 dias sem comprar nada novo. Fora alimentos, medicamentos e artigos de higiene básicos, eu pediria tudo emprestado e compraria de segunda mão, ou simplesmente ficaria sem.” Será que é possível ficar longe de shoppings por tanto tempo? Segundo Assya, tranquilamente. E essas foram as lições que ela aprendeu no caminho:

1. Já tem coisa demais no mundo. A engenheira diz ter ficado chocada ao ver a quantidade de bens disponíveis em brechós, seções de classificados online e grupos de compra e venda no Facebook. “São montanhas de roupas, toneladas de móveis, pratos, panelas, um oceano de todas as coisas imagináveis. Conforme todo esse material vai sendo jogado fora, mais é fabricado. Nós não precisamos de mais.”

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2. Pessoas compram por puro impulso. Quando passou a procurar itens usados de que precisava, Assya se deparou com uma quantidade enorme de produtos praticamente novos — em alguns casos, com etiquetas de preço e embalagem original. Ou seja, quem comprou não precisava daquilo. Eram desde velas perfumadas até roupas novinhas.

Woman shopping online Original Filename: 72883564.jpg Gettyimages

3. Ainda existe preconceito em relação a itens usados. Ao contar para as pessoas sobre sua experiência, era sempre questionada sobre a higiene da escolha. “Muitos achavam que a compra de roupas, móveis e outras mercadorias utilizadas em vez de novas era algo sujo e não muito civilizado. Que mentalidade estranha! Essas mesmas pessoas não teriam problema em doar seus bens usados para brechós. Mas acho que o que é bom suficiente para pessoas de baixa renda não é bom para ‘nós’.”

4. Quando nada é novo, nada é caro. A conta bancária definitivamente teve tempo para descansar (e acumular dinheiro) durante esses 200 dias. Os bens que passou a adquirir eram mais baratos. E Assya diz nunca ter sentindo que a qualidade do que comprava estava comprometida.

5. É mais prazeroso comprar de uma pessoa do que uma empresa.“Especialmente quando fazia compras por meio de classificados, descobri que a maioria dos vendedores eram honestos e solícitos. Eram pessoas normais que queriam apenas recuperar uma parte do preço de compra com a venda de itens perfeitamente utilizáveis. Era bom saber que meu dinheiro estaria indo diretamente para alguém como eu, em vez de para uma empresa sem rosto”, escreveu Assya.

6. Ela não precisava do que costumava comprar. Muitas coisas, mesmo as mais comuns, ela simplesmente não conseguia encontrar usadas. “Quando fui forçada a não comprá-las —contra meus impulsos mais fortes, por vezes — me surpreendia como nada na minha vida mudava. Nem minha saúde, felicidade ou paz interior. Percebi que a maioria das coisas são realmente apenas ‘legais de ter’ e não necessidades reais.”

“Meus 200 dias não foram apenas uma experiência opcional de vida sustentável e minimalismo. Foram uma viagem necessária e transformadora. Quando alguém morre, esperam que você apenas ‘supere’ e volte ao normal. Não queria sentir como se perder o meu pai fosse um acontecimento que eu simplesmente superasse e saísse inalterada. Em vez disso, permiti que a experiência me mudasse profundamente.”

Assya diz esperar incentivar outras pessoas a iniciarem seus projetos de 10, 30 ou até 200 dias. Ou pelo menos dar uma passadinha em um brechó antes de fazer a próxima compra.